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Lições sobre ética empresarial
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Ao todo, quatro lições, quatro pontos fundamentais para pensar o comportamento correto em cada situação do ambiente corporativo. Pois capacitar eticamente uma organização não é tarefa fácil. Requer estudo, humildade e muito trabalho.


Lição 1 - Liberdade/responsabilidade


Liberdade é, antes de mais nada, liberdade de fazer. De ação. Ausência de obstáculo que se oponha ao movimento. Somos livres para agir quando nada nem ninguém disso nos impede. Esssa liberdade nunca é absoluta. E raramente é nula. Porque mesmo o prisioneiro pode revolucionar. Mas também nunca podemos, em lugar nenhum, fazer tudo que queremos. Os outros e as normas são limites que não podemos ultrapassar. Por isso toda liberdade é definida politicamente. Porque a força que a limita também é a única capaz de garanti-la.

Nos limites desta nossa liberdade, somos responsáveis pelas decisões que tomamos. Porque poderíamos ter feito diferente. Porque optamos por uma solução em detrimento de outras. Porque deliberamos por uma conduta e, para isso, renunciamos. E essa possibilidade de escolha fundamenta nossa responsabilidade. E por que?

 

Toda conduta produz efeitos. Afeta aquele pedaço de mundo onde nos encontramos. E, sobretudo, as pessoas com as quais nos relacionamos. A liberdade pressupõe consciência desta relação entre o que fazemos e os efeitos que desencadeamos. Desta forma, se agíssemos diferentemente, sabemos que afetaríamos de outra forma os demais. Assim, dizemos que os efeitos, positivos ou negativos, de nossa conduta são de nossa responsabilidade.

 

Mas, e quando não temos liberdade? Neste caso nossa conduta é determinada por uma vontade que não é a nossa. Somos mero instrumento de deliberação alheia. Como uma ferramenta. Que não pode agir de outra forma sobre o mundo senão pela via que lhe foi imposta de fora. Neste caso, não há que responsabilizar o martelo pelos efeitos da martelada. E sim a deliberação inteligente de quem o manuseia.

 

Ignorar os limites da própria liberdade implica ignorar as próprias responsabilidades. Quando isto se converte em hábito, acabamos nos acostumando a responsabilizar terceiros. A apontar o dedo para o outro. Reflexo de denúncia. Inversamente, decidir nos limtes da própria autonomia é exercício que estimula a responsabilidade. E habituar-se a responder pelas próprias deliberações é condição de  maturidade decisória. Decidir com excelência, como toda prática humana, exige treinamento. Repetição. É muito difícil começar a fazer escolhas em um espaço contaminado pela cultura da submissão. Toda inovação em processos e procedimentos pressupõe autorizamento recorrente. Saber calcular riscos. Errar e assumir seus erros. Sem temor imobilizante.

 

Desta forma, acreditamos que todo colaborador deva conhecer, com a maior clareza possível, os limites da sua atuação. Só assim poderá reivindicar autonomia e poder de deliberação. E assumir as responsabilidades por este exercício. Entendendo as consequências institucionais e pessoais de sua conduta. Fora destes limites, agirá mediante determinação de terceiro responsável.

 

Para que isto aconteça, deve haver, por parte da instituição, confiança na autonomia. Na capacidade decisória de todos os seus agentes, nos limites da soberania de cada um. Confiança também na heteronomia. Na obediência das relações hierárquicas. Muitas das ocorrências discutidas pelo Comitê de ética denunciam incerteza sobre o alcance do poder decisório de cada colaborador. E consequentemente, inércia decisória.

 

Lição 2 - Confiança

Confiança é princípio moral. E a desconfiança também. Porque podemos conviver confiando nos outros. Ou não. A definição dos princípios que nortearão a convivência – e dos que serão excluidos dela - é trabalho político. Tem a ver com o poder para definí-los.

 

Confiamos quando estamos seguros do comportamento alheio sem qualquer constatação empírica. A rigor, o objeto da confiança não é propriamente o outro, nem mesmo sua conduta. Afinal, toda ação é estritamente inédita. Só podemos, portanto, confiar no respeito aos princípios ou máximas que costumam reger sua conduta. Por isto, toda confiança se constrói ao longo de uma relação. Na interação entre condutas e expectativas.

 

Não há confiança genérica. Indiscriminada. Nossa certeza sobre o que farão aqueles em quem confiamos sempre se restringe a um certo território prático. Toda confiança tem, portanto, fronteiras de incidência pratica. Isto é, só confiamos em alguém para condutas específicas e definidas previamente. Assim, tal como no caso da responsabilidade e do poder de decisão, os limites da confiança devem estar claramente definidos pelos agentes da relação.

 

Nem sempre a confiança no comportamento de um agente da instituição exige convivência direta. A pavimentação de relações de confiança pode ser mediada por protocolos ou procedimentos. Todo pertencimento institucional presume algum tipo de confiança por parte de todo o coletivo em relação a qualquer agente da instituição. Isto é, se tiverem sido respeitados os procedimentos legítimos de seleção inicial e promoção, com critérios positivos, conhecidos de todos, deve haver confiança por parte de toda a instituição a respeito da conduta de qualquer agente autorizado para deliberar.

 

Muitas das demandas dos Comitês de Ética denunciam fragilidade de confiança. Nas condutas e nos procedimentos. Por isso há um receio em respeitar limites de autonomia decisória já estabelecidos e, sobretudo, em definir novas formas de delegação de poderes. A falta de confiança se traduz em temor decisório e imobilismo por parte daqueles cujo comportamento desperta a desconfiança dos demais.

 

As denúncias aos Comitês de Ética indicam nefasta e recorrente desconfiança em relação aos ritos de instituição. A opacidade de critérios macula de suspeição e de ilegitimidade a ocupação de postos decisórios. O que aumenta e muito o temor de quem decide.

 

Lição 3 - Ética e eficácia empresarial

 

O mundo da técnica, no qual o jogo coorporativo se instalou, é regido pelos resultados. A capacidade de alcançá-los separa vencedores de vencidos, campeões de fracassados. O lucro e a concentração do capital são, cada vez mais, a condição para continuar jogando. E a desclassificação é implacável. Por isso, alcançar metas, targets, goals e resultados converteu-se em verdadeira histeria coorporativa. Desta forma, tudo parece válido na hora de se dar bem. Todos os meios parecem legítimos para evitar a exclusão do jogo.

 

Só ficou faltando falar da ética. Afinal, quando tudo é lucro, quando os resultados estão acima do esperado, não é difícil dizer-se respeitador deste ou daquele princípio ético. Quando tudo parece garantido, pode-se dar ao luxo de pensar no planeta, na ecologia, e até nos outros humanos. Mas como todos querem um lugar ao sol, e a abundância é rara, pode acontecer que aquilo que um dia foi nosso deixe de ser num piscar de olhos. E quando alguma ameaça se apresenta, a disposição para respeitar princípios, sobretudo aqueles que mais atrapalham a estratégia da vez, diminui na mesma proporção em que o temor aumenta.

 

Eis o melhor momento para distinguir a ética da cosmética. O faz de conta do respeito incondicional ao que é certo. Ao abrir mão dos princípios, o coletivo acaba dilapidando, sem perceber, seu maior patrimônio: sua identidade. Aquilo que públicos externos e internos sempre acharam que significava aquele espaço de relações. Toda definição identitária compreende o que já fizemos, livremente, de nossas vida. As deliberações que já tomamos. As estratégias que já adotamos. E as negociatas em que não nos metemos, mesmo nos momentos mais adversos. Eis o único verdadeiro patrimônio. O território sagrado do inegociável. O limite do qual não passaremos jamais. Sob pena de perdermos nossa definição. E impedirmos a quem quer que seja de nos reconhecer.

 

A perda de algum lucro é circunstancial. A recuperar em qualquer momento. Já a identidade, uma vez estilhaçada, semeará a incompreensão e a desconfiança de todos. Afinal, é impossível nos relacionarmos com alguém que não sabemos mais quem é. E que todos os agentes deste coletivo, conheçam nas vísceras, os atributos morais da própria identidade. Para que saibam com clareza até onde poderão negociar e a partir de quando colocarão em risco a própria existência moral.

 

Fraudar a identidade é inviabilizar a confiança que o resto do mundo possa ter em nós. O que exigiria prospectar outros incautos para novos engodos e sempre renovadas frustrações. E tornaria a própria empresa insustentável.

 

Lição 4 - Transparência

 

Nada será feito, em certos espaços, que não possa ser visto e conhecido por qualquer um. Princípio da publicidade. Preceito constitucional. Mas essa publicidade jurídica não é tudo. Toda transparência é entre uma coisa e outra. Indica correspondência entre diferentes. Assim, nossa conduta, qualquer conduta, comunica os princípios que são os nossos. Com maior ou menor fidelidade.

 

Como fazem parte de um coletivo, que respeita princípios compartilhados, cada um de seus agentes é corresponsável por comunica-los a cada conduta. De tal maneira que todos os eventuais interlocutores, a cada interação, sejam informados e tenham a clara confirmação dos mesmos. Quando a instituição se vê obrigada a destacar e explicitar seus princípios em recursos de comunicação visual é porque a conduta de seus agentes não os indica com a clareza necessária. Falta de transparência. Opacidade. Cinismo. Esforço da propaganda contra uma prática que a desmente a cada segundo.

 

Este comitê de ética deve se apresentar à instituição à qual pertence. Dizer o que faz. Que procedimentos adota. Que questões analisa e discute. Como pretende interagir com os demais setores da instituição. Como comunica suas decisões. Como se renova. Os limites de sua competência para definir o certo e o errado, o justo e o injusto, o adequado e o inadequado das condutas de todos os colaboradores.

 

Deve também tornar os princípios da empresa mais próximos do repertório de todo colaborador. Bem como as máximas e normas que deles decorrem. Para que ninguém possa, de fato e não só de direito, excusar-se de não saber o que o coletivo considera certo ou errado.





 

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